Escolhendo a pergunta certa

O pesquisador não se destaca pelas respostas, mas sim pelas perguntas que propõe. Muitas vezes a dificuldade de resposta é devido a perguntas inadequadas: mesmo que estejam disponíveis mão de obra e habilidade técnica, sem a pergunta certa podemos não chegar a nenhum resultado.

Algumas características são necessárias para conseguir fazer uma boa pergunta:

  • Conhecimento global da literatura: Não é conhecimento de toda a literatura, isso seria impossível! Mas é preciso estar antenado às publicações e descobrimentos relevantes, e não se restringir apenas a temática específica que se quer abordar. A interface entre a área médica e outras áreas gera resultados muito ricos – pense na interação necessária entre biologia e física para desenvolver um equipamento de ressonância magnética nuclear, por exemplo. Não busque perguntas exclusivamente na sua área.
  • Questionar as verdades que são consideradas absolutas: Algumas afirmações acabam se tornando dogmas devido a falta de ceticismo. Se o texto científico faz uma citação de resultado de um outro texto, procure sempre verificar o trabalho original para evitar a propagações catastróficas de conclusões incorretas.
  • Ter expertise na área: Você ou seu orientador devem saber quais são os problemas da área, quais são as metodologias usadas e compreender os aspectos a serem examinados.

Pergunta ideal x Pergunta certa

Pergunta ideal: É algo com relevância e impacto no conhecimento científico. Seria maravilhoso respondê-la! Mas talvez falte-lhe tempo, dinheiro ou mesmo habilidade técnica para isso.

Pergunta certa: É derivada da pergunta ideal, sendo geralmente uma parte ela. Mas veja só, essa parte você tem condições de responder!

No livro Designing clinical research (Hulley et al, 2007), algumas características são listadas para ajudar a definir se você tem a pergunta certa. Elas formam o acrônimo “FINER”: Feasible, interesting, novel, ethical, and relevant.

FINER

Feasible: É factível? Tenho pessoal, habilidade, equipamento, financiamento e tempo necessários? Tenho acesso aos dados de que preciso?

Interesting: É interessante? Você vai ter que lidar com o assunto por bastante tempo. Faça algo que seja muito intrigante para você, pois a exigência e dedicação exigidas levam naturalmente a um desgaste do pesquisador, mesmo que você tenha alguma curiosidade pelo tema – imagine se você não gostar muito dele.

Novel: É novidade? Confirma, refuta ou amplia descobertas anteriores? Preferencialmente deve gerar um conhecimento novo, embora seja exigência real apenas para o doutorado.

Ethical: É ética? Sempre é necessário considerar este quesito, especialmente se envolve humanos e animais – lembre-se ainda que neste caso é necessária a aprovação no CEP ou CEUA.

Relevant: É relevante? Terá importância para o conhecimento científico como um todo, para políticas clínicas e de saúde pública, para pesquisas futuras? Para conhecer a relevância você deve estar atualizado – lembre-se do conhecimento global da literatura que recomendamos anteriormente.

 

Objetivo

Pense agora no seu projeto de pesquisa de maneira bastante pragmática. Ele terá uma seção “objetivos”, onde o leitor é informado sobre o que você quer alcançar em seu estudo. O texto deve ser redigido de forma clara e direta – em publicações científicas evita-se rebuscamento literário, sendo a meta informar o público alvo. Seus objetivos devem estar atrelados a bons métodos e desenhos de estudo, mas falaremos destes mais tarde.

Podemos dividir seu objetivo em geral e específico.

O objetivo geral é uma declaração das principais relações e associações que você procura descrever ou estabelecer. Estará intimamente ligado a seção “introdução” de seu trabalho.

O objetivo específico surge naturalmente através de perguntas para responder o objetivo geral. Este é o que você deve abordar na seção “objetivos” de seu trabalho.

Lembre-se: Seu trabalho não pode cobrir tudo – a abrangência muito ampla acaba sendo um empecilho e razão para recusa de projetos, já que a possibilidade real de completá-lo é considerada pequena. Concentre-se em um aspecto específico.

Vejamos um exemplo de como chegar a um objetivo específico. Inicialmente escolhemos uma grande área de pesquisa.

 

Grande área da pesquisa

Vamos tomar como exemplo o Alcoolismo.

Veja que é impossível escrever um grande artigo que contenha todas as informações possíveis sobre uma grande área. Por isso, vamos sugerir algumas subáreas de interesse.

 

Subáreas

  • Perfil dos alcoólatras
  • Causas do alcoolismo
  • Como é o processo de tornar-se alcoólatra
  • Efeitos do alcoolismo na família
  • Atitudes da comunidade frente ao alcoolismo
  • Efetividade de um modelo de tratamento.

Veja que cada uma dessas subáreas pode gerar um projeto específico, mas abordar vários deles ao mesmo tempo pode equivaler a dar um passo maior do que a perna. Escolha aquele em que tenha mais expertise, familiaridade, recursos e interesse. Este será seu objetivo geral. Vamos determinar mais subáreas a partir dele.

 

Sub-subáreas 🙂

Digamos que escolhi “Efeitos do alcoolismo nas famílias”. Algumas sugestões de questões de interesse são:

  • Qual o impacto do alcoolismo na relação do casal?
  • Como isso afeta vários aspectos na vida dos filhos?
  • Qual o efeito sobre as finanças?

O que você escolher agora será seu objetivo específico. Lembre-se de verificar se sua pergunta se encaixa nos critérios FINER para ajudá-lo a consolidar sua decisão.

Mas o objetivo não é escrito como pergunta, mas sim como ação; portanto falta uma última alteração.

 

Reescrever com verbo de ação

No nosso exemplo:

Qual o impacto do alcoolismo na relação do casal?

Estudar o impacto do alcoolismo na relação do casal.

Pronto, seu objetivo específico está definido!

 

Mas meu projeto tem uma pergunta tão simples…

Qual a cura do câncer? Do HIV? De doenças neurodegenerativas?

Na iniciação científica, o projeto provavelmente não vai ter como resultado a resposta a uma questão como estas – afinal, você está só começando a entrar no mundo científico – mas vai contribuir para um projeto maior e para o desenvolvimento acadêmico do aluno. O aprendizado e incentivo a novos pesquisadores é também uma etapa importante do trabalho científico.